Diogo Kammers

CX para SaaS · 7 min

Como analisar as respostas abertas de uma pesquisa de satisfação

As regras para transformar comentário solto em direção de decisão: contagem por pessoa, a queixa depois do mas, o que a lista de palavras não resolve, e como medir se a sua análise acerta.

Por Diogo Kammers · 08/09/2026

O que a nota não conta

Uma pesquisa de satisfação devolve dois tipos de dado. A nota diz se foi bom ou ruim. O comentário diz sobre o quê. Operações que olham só a nota sabem que o número caiu e não sabem o que consertar.

Analisar respostas abertas é o trabalho de transformar texto solto em direção de decisão. O que segue são as regras que a DNACX usa para fazer isso, incluindo as que nasceram de erro corrigido, e o número que mede se a análise acerta.

Regra 1: conte por pessoa, nunca por linha

Quem responde NPS e CSAT no mesmo formulário escreveu um comentário. Se a contagem for por linha, essa pessoa vira duas.

O efeito é maior do que parece. Numa pesquisa que mistura métricas, os percentuais de sentimento somam mais de 100% e ninguém percebe, porque cada número isolado parece plausível. Aqui isso foi corrigido em 22/08/2026, depois de uma análise mista fechar em 200%.

A regra vale para tudo: sentimento, palavras mais citadas, temas. Uma pessoa, uma vez.

Regra 2: adjetivo de polaridade pura fica fora da contagem de temas

"Ótimo", "excelente", "péssimo" e "positiva" dizem se foi bom ou ruim. Não dizem sobre o quê. Se esses adjetivos entram na lista de palavras mais citadas, a lista devolve o que você já sabia pela nota, e o tema real fica embaixo deles.

Pelo mesmo motivo saem os pronomes de pessoa indefinida. "Ninguém" e "alguém" apontam que faltou alguém, e não sobre o que faltou.

Quem mede polaridade é o sentimento. A contagem de palavras existe para responder outra pergunta.

Regra 3: a queixa é o que vem depois do "mas"

Esta é a regra que mais muda o resultado, e a mais fácil de errar.

Em "a equipe foi cordial, mas faltou agilidade", a queixa é agilidade. A palavra "equipe" está na parte elogiada da frase. Uma contagem ingênua registra as duas, e conclui que os clientes reclamam da equipe.

A regra tem escopo, e o escopo importa:

  • Vale quando a pergunta é "do que os clientes reclamam".
  • Deixa de valer quando a pergunta é "sobre o que os clientes falam", porque aí as duas metades contam.

E a citação mostrada ao time deve ser a frase inteira. É o "mas" que dá o contexto, e cortar a primeira metade transforma um elogio com ressalva numa reclamação.

Regra 4: quatro construções que invertem o sentido

Classificar sentimento por vocabulário funciona até a frase virar. Quatro casos precisam de tratamento explícito, e nenhum deles é raro em pesquisa de cliente.

Negação. "Não tive nenhum problema" é elogio, e carrega a palavra "problema".

Adversativa. Em "X mas Y", quem decide é Y. "Bom, mas péssimo" é reclamação.

Expressão de várias palavras. "Deixa a desejar", "vale a pena", "bem atendido", "poderia ser mais barato", "nunca mais". Nenhuma se resolve palavra por palavra.

Superlativo com negador. "Nunca foi tão simples" é elogio, e começa com "nunca".

O que não se resolve, e é melhor declarar

Ironia, sarcasmo e comparação com concorrente ficam fora do alcance de qualquer lista de palavras. Frases cujo sentido vem da situação também: "voltei a comprar por causa do atendimento" é elogio evidente para um leitor humano e não tem uma única palavra de elogio.

A escolha aqui é deixar esses casos como neutro em vez de chutar. Comentário sem palavra claramente positiva ou negativa fica de fora dos dois lados.

Como saber se a sua análise acerta

Toda análise de texto erra. A pergunta útil é quanto e de que jeito, e isso se mede com um conjunto de casos rotulados à mão, separado em partes.

A partição é o que impede o autoengano:

  • Um conjunto de ajuste, usado para calibrar as regras.
  • Um conjunto de holdout, guardado.
  • Conjuntos cegos, escritos por quem não olhou o classificador.

O número que vale reportar é o dos cegos. O de ajuste está contaminado pela calibração e infla a média.

Os números da nossa análise

O léxico da ferramenta de Pesquisa de Satisfação da DNACX é medido contra 268 comentários rotulados, divididos dessa forma. O resultado:

ConjuntoAcerto
Ajuste, que calibra96,9%
Holdout92,5%
Cego 192,0%
Cego 294,0%

Nos conjuntos cegos, portanto, entre 92% e 94%.

O erro que engana e o erro que só falta

Nem todo erro custa o mesmo, e essa distinção deveria estar em qualquer relatório de análise de texto.

Inversão é chamar reclamação de elogio, ou o contrário. É o erro que engana, porque entra na contagem com o sinal trocado e move a decisão para o lado errado. No conjunto de 268, a inversão acontece em 2 casos, ou 0,7%.

Não detectado é o comentário que sai como neutro. Acontece em 10 casos, ou 3,7%. Esse erro subtrai volume sem distorcer direção: deixa de contar em vez de contar errado.

Uma análise com 4% de casos não detectados e 0,7% de inversão serve para decidir prioridade. Uma com 0,7% de não detectados e 4% de inversão não serviria, mesmo tendo a mesma acurácia total.

Como aplicar sem ferramenta nenhuma

Com menos de duzentos comentários, isso se faz numa planilha em uma tarde:

  1. Junte as respostas por pessoa antes de qualquer contagem.
  2. Leia uma vez marcando só positivo, negativo ou neutro, sem tema.
  3. Na segunda passada, marque o tema só da parte que carrega a queixa.
  4. Tire adjetivos de polaridade da contagem de temas.
  5. Separe cinquenta comentários antes de começar, classifique-os no fim, e compare. É o seu conjunto cego, e ele diz se as suas regras funcionam ou se você está vendo o que quer ver.

O passo 5 é o que quase ninguém faz, e é o único que transforma leitura de comentário em medição.

Quero aplicar isso na minha operação

Esse artigo faz parte do hub CX para SaaS.

FAQ

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre analisar a nota e analisar o comentário?

A nota diz se a experiência foi boa ou ruim. O comentário diz sobre o quê. Sem o comentário você sabe que o número caiu e não sabe o que consertar, então a nota serve para acompanhar e o texto serve para decidir.

Por que contar por pessoa e não por resposta?

Quem responde NPS e CSAT no mesmo formulário escreveu um comentário só. Contando por linha, essa pessoa vira duas e os percentuais de sentimento passam de 100%. Numa pesquisa mista isso chegou a somar 200% antes de a regra ser corrigida em 22/08/2026.

O que fazer com um comentário como “a equipe foi cordial, mas faltou agilidade”?

A queixa é agilidade. A palavra equipe está na parte elogiada. Ao contar do que os clientes reclamam, vale só o trecho depois do mas. Ao contar sobre o que eles falam, valem as duas metades. E a citação mostrada ao time deve ser a frase inteira, porque é o mas que dá o contexto.

Análise de sentimento por lista de palavras funciona?

Funciona para dar direção ao volume, desde que trate negação, adversativa, expressões de várias palavras e superlativo com negador. Ficam fora do alcance dela a ironia, o sarcasmo e a comparação com concorrente, e o correto é declarar esses casos como neutro em vez de chutar.

Como medir se a minha análise de comentários está certa?

Separe um conjunto de comentários antes de começar, classifique à mão sem olhar o resultado da ferramenta, e compare no fim. É o conjunto cego. O número que vale reportar é o dele, porque o conjunto usado para calibrar as regras infla a média.

Qual erro de classificação é mais grave?

A inversão, que é chamar reclamação de elogio ou o contrário, porque entra na contagem com o sinal trocado e move a decisão para o lado errado. Comentário que sai como neutro apenas deixa de contar. Duas análises com a mesma acurácia total podem ter utilidades muito diferentes dependendo de qual dos dois erros domina.