Diogo Kammers

CX para SaaS · 6 min

Turnover de quem atende: o número que falta em toda pesquisa de CX no Brasil

Toda pesquisa de satisfação mede como o cliente se sente. Nenhuma cruza isso com o quanto a própria equipe de atendimento troca de gente. Dado real do RAIS e do CAGED mostra o tamanho dessa lacuna.

Por Diogo Kammers · 17/09/2026

O lado que a pesquisa de satisfação nunca mede

Todo NPS, todo CSAT, toda pesquisa de satisfação deste site e de qualquer outra empresa de CX mede uma coisa: como o cliente se sente depois do atendimento. Nenhuma delas cruza esse número com o quanto a equipe que atendeu esse cliente está trocando de gente. São duas métricas do mesmo processo, medidas por instrumentos que nunca se falam.

Isso importa porque rotatividade alta tem mecanismo direto sobre qualidade: cada saída reinicia uma curva de aprendizado, cada substituto novo atende com menos contexto de produto e menos histórico do cliente do que quem saiu. Se essa curva se repete a cada poucos meses, o cliente do outro lado da linha sente o efeito, mesmo que nenhuma pesquisa pergunte por ele.

O tamanho do problema, com dado real

A calculadora de turnover de atendimento da DNACX cruza dois registros administrativos do governo federal: o RAIS, que registra o estoque de vínculos empregatícios ativos em 31 de dezembro, e o Novo CAGED, que registra cada admissão e desligamento ocorrido durante o ano, os dois via BigQuery (Base dos Dados). Dividir desligamentos pelo estoque final do mesmo ano e ocupação dá uma taxa de turnover aproximada, ano de referência 2025, para seis ocupações de atendimento e suporte ao cliente com CBO próprio no Brasil:

OcupaçãoVínculos ativosTurnover totalTurnover voluntário
Operador de Telemarketing Ativo e Receptivo283.15390,7%48,4%
Operador de Suporte Técnico (telemarketing)19.33666,0%26,8%
Atendente de Telemarketing80.79863,5%29,7%
Supervisor de Atendimento ao Cliente45.04336,9%12,3%
Técnico de Suporte de TI (helpdesk)90.61934,5%15,3%
Analista de Suporte Computacional110.59828,9%13,2%

A maior ocupação em volume, telemarketing ativo e receptivo, tem também a maior rotatividade: quase um em cada colaborador é substituído dentro de um ano, e quase metade dessas saídas é por pedido do próprio trabalhador, não decisão da empresa.

A distinção que evita a leitura fácil

"Turnover total" e "turnover voluntário" não são a mesma medida, e tratá-las como sinônimo produz uma leitura enganosa. O total conta qualquer desligamento: demissão sem justa causa, fim de contrato temporário, aposentadoria, acordo entre as partes. O voluntário conta só o código do CAGED que representa o trabalhador pedindo para sair (tipo de movimentação 40). Em telemarketing ativo e receptivo, mais da metade do turnover total é decisão da empresa, não do colaborador, o que já é um dado interessante por si: parte relevante dessa rotatividade vem de contratos temporários e reestruturação de operação, não de insatisfação de quem atende.

O que muda de estado para estado

A mesma ocupação, telemarketing ativo e receptivo, tem turnover de 110% em Minas Gerais (base grande, 26.634 vínculos ativos) contra 48,9% no Distrito Federal (2.263 vínculos). Um turnover acima de 100% não é erro de conta: significa que o número de desligamentos no ano superou o estoque final, o que acontece quando uma parcela da equipe passa por mais de um ciclo de contratação e saída dentro do mesmo ano, cenário plausível numa operação de alto volume e alta rotatividade como telemarketing. A distância entre os dois estados por si só já é maior do que qualquer variação de satisfação do cliente que este site já mediu numa única variável.

O turnover também muda conforme quem contrata

A tabela nacional agrega as seis ocupações, mas ainda não diz quem é o empregador. Cruzar as mesmas seis ocupações com o setor econômico do empregador (seção CNAE 2.0, mesma base RAIS x CAGED, ano 2025) mostra algo que a régua por ocupação sozinha não revela:

Setor (CNAE)Vínculos ativosTurnover totalTurnover voluntário
Atividades administrativas e serviços complementares321.84186,5%45,8%
Informação e comunicação129.16937,0%16,6%
Comércio; reparação de veículos automotores42.35746,8%20,2%
Atividades financeiras, de seguros e serviços relacionados26.50031,1%11,7%
Saúde humana e serviços sociais23.74941,0%20,3%
Atividades profissionais, científicas e técnicas18.23878,7%34,1%
Educação17.22431,9%13,0%
Indústrias de transformação16.53228,8%11,3%

O setor que mais emprega gente em atendimento é "Atividades Administrativas e Serviços Complementares", a categoria que abriga call centers terceirizados, não telecom, banco ou operadora de saúde. Sozinho, ele concentra mais da metade dos 653 mil vínculos das seis ocupações somadas, e tem o segundo maior turnover entre os oito setores desta tabela, atrás apenas do agregado nacional de telemarketing citado acima. A leitura prática: a maior parte de quem atende no Brasil trabalha para um prestador terceirizado que atende várias marcas ao mesmo tempo, não para a empresa que o cliente reconhece na fatura ou no aplicativo.

O gancho para pesquisa futura, que este artigo não fecha

A pergunta óbvia depois de ver esse tamanho é: será que turnover mais alto de fato correlaciona com nota de satisfação mais baixa? Este artigo não responde essa pergunta, porque respondê-la exigiria uma base que cruze, empresa por empresa, a rotatividade real da operação com a nota de satisfação medida na mesma janela de tempo, dado que nenhuma fonte pública brasileira reúne hoje. O que existe é a hipótese razoável (mais troca de gente, menos experiência acumulada por atendimento, mais chance de erro) e o tamanho real da variável que falta, que este artigo documenta. Uma pesquisa de CX que queira investigar essa relação já tem, a partir de hoje, o número da rotatividade pronto para cruzar com o seu próprio dado de satisfação.

Meça a sua própria operação

A calculadora de turnover de atendimento usa esses mesmos números como benchmark de partida: escolha a ocupação mais próxima da sua operação, informe headcount e salário, e veja o custo anual estimado de repor quem sai, com a mesma distinção entre turnover total e voluntário.

Quero aplicar isso na minha operação

Esse artigo faz parte do hub CX para SaaS.

FAQ

Perguntas frequentes

De onde vêm esses números de turnover?

Do cruzamento entre o RAIS (estoque de vínculos ativos em 31/12) e o Novo CAGED (desligamentos ao longo do ano), via BigQuery (Base dos Dados), para seis ocupações de atendimento e suporte ao cliente com CBO próprio no Brasil, ano de referência 2025. Licença CC BY 4.0.

Por que o turnover de Minas Gerais passa de 100%?

Porque a taxa é uma aproximação (desligamentos no ano dividido pelo estoque final do mesmo ano), e um valor acima de 100% significa que parte da equipe passou por mais de um ciclo de contratação e saída dentro do mesmo ano, algo plausível em operações de alto volume como telemarketing. Não é erro de conta, é uma característica real de uma base de rotatividade muito alta.

Este artigo prova que turnover alto reduz a satisfação do cliente?

Não. O artigo documenta o tamanho real da rotatividade e propõe a hipótese como gancho de pesquisa futura, mas não existe hoje uma base pública que cruze, empresa por empresa, turnover real e nota de satisfação na mesma janela de tempo para testar essa correlação.

O turnover de quem atende varia por setor econômico, além de por ocupação e estado?

Sim, e a diferença é grande: o setor de Atividades Administrativas e Serviços Complementares, que abriga os call centers terceirizados, concentra mais da metade dos vínculos de atendimento do país e tem turnover de 86,5% ao ano, muito acima de setores como Indústrias de Transformação (28,8%) ou Educação (31,9%).