Pular para o conteúdo
Diogo Kammers

CX para PMEs · 9 min

O conhecimento que vai embora com quem sai: o que minha pesquisa de 2013 sobre suporte técnico ainda ensina

Em 2013 pesquisei como um suporte técnico podia manter o conhecimento quando os técnicos saem. A base teórica, o método, as sete perguntas respondidas por 32 funcionários e como aplicar hoje.

Por Diogo Kammers · 25/09/2026

O conhecimento de um suporte técnico vai embora com quem sai, a menos que a empresa dê a ele um lugar para ficar. Era essa a conclusão da minha monografia de 2013 no curso de Sistemas de Informação da Unisul, e é a parte que continua valendo treze anos depois, agora que o tema virou base de conhecimento, IA de atendimento e retenção de quem atende.

A monografia está na minha trajetória, e o trabalho se chama "Comunidade de prática para apoio na solução de problemas e gestão da informação em um suporte técnico" e está em acesso aberto no repositório da Ânima. Foi orientado pelo professor Flávio Ceci e feito com o suporte técnico de uma empresa de telecomunicações da Grande Florianópolis, que pediu para não ser identificada e aparece no texto com o nome fictício DX Telecom.

A pergunta que eu queria responder

A pergunta de pesquisa, como está no trabalho: "Como definir uma infra-estrutura para auxiliar na gestão da informação e garantir que o conhecimento não seja individual, mas, sim, um bem intelectual da empresa?"

O problema era concreto. O volume de informação crescia todo dia, ficava espalhado em vários repositórios, e cada técnico resolvia incidentes com o que tinha na cabeça. Quando alguém saía, levava junto o que tinha aprendido. O texto diz isso sem rodeio: "colaboradores saem da empresa e acabam levando consigo o conhecimento adquirido."

A monografia registra ainda um motivo menos óbvio para o conhecimento não circular: alguns técnicos o usam como diferencial competitivo, ou não o compartilham "por medo de não serem mais úteis à função desempenhada". Quem já gerenciou suporte reconhece esse técnico.

A base teórica que a monografia usa

O referencial do trabalho se apoia em quatro linhas, todas com a obra listada nas referências:

  • Takeuchi e Nonaka, Gestão do Conhecimento (Bookman, 2008). Deles vem a separação entre conhecimento explícito, o que se escreve e transmite com facilidade, e tácito, o pessoal e difícil de formalizar. Também os quatro modos de conversão: socialização, externalização, combinação e internalização. A citação que sustenta o problema: "O conhecimento é criado pelos indivíduos. Em outras palavras, uma organização não pode criar conhecimento por si mesma, sem os indivíduos."
  • Probst, Raub e Romhardt, Gestão do Conhecimento: os elementos construtivos do sucesso (Bookman, 2002). Para eles, "o compartilhamento e a distribuição do conhecimento em uma organização são uma condição prévia vital para transformar informações ou experiências isoladas em algo que toda a organização possa utilizar".
  • Lave e Wenger, Situated learning (Cambridge University Press, 1991), e Etienne Wenger, Communities of practice: learning as a social system (texto apresentado em Toronto em 1999). O termo comunidade de prática é atribuído a Lave e Wenger. De Wenger vêm as três dimensões (domínio, comunidade e prática), os cinco estágios de desenvolvimento (potencial, união, maturidade, ativa e dispersa) e os níveis de participação, que começam por um grupo principal pequeno "cuja paixão e envolvimento energiza a comunidade".
  • Alavi e Leidner (MIS Quarterly, 2001) e Coutinho e colegas (Colabor@, 2007), sobre o fórum como ferramenta. O fórum cobre as quatro etapas da gestão do conhecimento de Alavi e Leidner (criação, armazenamento e recuperação, transferência e aplicação), e Coutinho e colegas apontam a vantagem que mais pesa num suporte: evitar que a mesma pessoa responda à mesma pergunta várias vezes.

Duas referências dizem o que a empresa precisa fazer para a comunidade vingar. Terra e Gordon (Portais corporativos, Negócio Editora, 2002) listam, entre outras ações, aceitar a legitimidade informal da comunidade, valorizar a participação individual e criar papéis dedicados a mantê-la, os "moderadores de conhecimento". E o quadro de benefícios adaptado de Allee (2000) inclui, para a comunidade, ajudar "a reter conhecimento quando empregados deixam a empresa".

Como a pesquisa foi feita

O trabalho é uma pesquisa aplicada, no sentido de Cervo e Bervian (2002): busca solução para um problema concreto. A abordagem é qualitativa. As etapas foram cinco, nesta ordem: referencial teórico, arquitetura da solução, protótipo, estudo de caso no suporte da DX Telecom e validação por questionário.

As delimitações foram impostas pela gerência do suporte, que queria baixo custo e implantação rápida:

  • só o suporte técnico, sem as demais áreas da empresa;
  • nenhum conteúdo antigo foi importado: a base apontava para as fontes de origem, e só o conteúdo novo podia ser cadastrado nela;
  • a busca achava palavras e números nos textos da base e do fórum, mas não dentro de arquivos PDF ou DOC;
  • apenas software livre, sem desenvolver sistema próprio e sem técnicas de inteligência artificial.

O que eu construí

A proposta tinha duas peças:

  • Uma base de informação centralizada, a "Página de Apoio SSC", com menus para documentação das soluções vendidas pela empresa, cases apresentados pelos técnicos, informativos internos e informações sobre clientes. As listagens apareciam em ordem das mais visualizadas, e publicar ou editar era tarefa dos administradores: o técnico que tivesse algo a acrescentar mandava por e-mail para avaliação.
  • Um fórum interno, para que o conhecimento que não está escrito em manual nenhum, o que o técnico aprende resolvendo o caso, virasse pergunta, resposta e registro. A participação era espontânea, e cada usuário escolhia os assuntos dos quais queria receber aviso.

A pilha era simples de propósito: Joomla! 2.5.8 com o módulo de fórum Kunena 2.0.4, Apache 2.0, PHP 5.3.1 e MySQL, num servidor CentOS 5.3 que a empresa já tinha. A demanda era considerada urgente e não havia pessoal para programar um sistema.

Quem respondeu

A avaliação foi um questionário aplicado a 32 funcionários do suporte técnico, com o sistema já em uso e apresentado formalmente à equipe. O perfil, somado a partir da tabela do cenário de avaliação:

  • Sexo: 29 homens e 3 mulheres.
  • Cargo: 13 técnicos em telecomunicações, 6 assistentes técnicos, 4 analistas de sistemas, 3 supervisores, 2 tecnólogos em redes de computadores, 2 assessores, 1 engenheiro elétrico e 1 gerente.
  • Idade: de 18 a 42 anos; 11 pessoas até 25 anos, 14 de 26 a 35 e 7 de 36 a 42.
  • Tempo de casa: de 1 a 16 anos; 10 pessoas com até 3 anos, 13 de 4 a 9 e 9 com 10 anos ou mais.

Cada uma das sete perguntas tinha quatro respostas possíveis: atende, atende em parte, atende completamente e não atende.

Os resultados das sete perguntas

Os percentuais estão como a monografia os imprime, e a contagem é sobre 32 respostas. A última coluna soma "atende" e "atende completamente".

PerguntaAtendeEm parteCompletamenteNão atendeAprovação
1. Tempo de busca satisfatório71,87% (23)12,5% (4)15,62% (5)0% (0)28/32 = 87,5%
2. Interface fácil de usar81,25% (26)6,25% (2)12,5% (4)0% (0)30/32 = 93,75%
3. Página de Apoio como melhor forma de consulta56,25% (18)34,37% (11)9,37% (3)0% (0)21/32 = 65,6%
4. Página de Apoio reduz a descentralização da informação53,12% (17)18,75% (6)25% (8)3,12% (1)25/32 = 78,1%
5. Fórum como melhor ferramenta para disseminar conhecimento46,87% (15)34,37% (11)15,62% (5)3,12% (1)20/32 = 62,5%
6. Fórum reduz as perdas com a rotatividade43,75% (14)31,25% (10)12,5% (4)12,5% (4)18/32 = 56,25%
7. Fórum para discutir e resolver incidentes62,5% (20)18,75% (6)18,75% (6)0% (0)26/32 = 81,25%

A tabela tem uma ordem clara. O que a equipe aprovou com folga foi a ferramenta em si: interface (30 de 32) e tempo de busca (28 de 32). O fórum como lugar de discutir incidentes também passou bem (26 de 32). A aprovação cai quando a pergunta sai do uso e vai para o papel da ferramenta: ser a melhor forma de consulta (21), a melhor forma de disseminar conhecimento (20) e proteger a empresa da rotatividade (18). Nesta última estão 4 das 6 respostas "não atende" da pesquisa inteira.

A última linha é a que eu mais aprendi a respeitar. Contra a rotatividade, a equipe desconfiava, e com razão: um fórum guarda o que foi escrito, e ninguém escreve tudo o que sabe.

O que o próprio sistema registrou

A monografia traz também as estatísticas do Joomla! e do Kunena. O fórum tinha 150 membros, 253 tópicos e 363 respostas, organizados em 84 categorias. Na base, os três conteúdos mais acessados eram os Informativos SSC (1.225 acessos), as Soluções (1.191) e os Utilitários (1.028).

O dado que mais diz está na lista de usuários mais ativos. Os cinco primeiros somavam 248 postagens (111, 62, 30, 25 e 20; os 25 eram meus), num fórum de 150 membros com 253 tópicos e 363 respostas. É o grupo principal de Wenger aparecendo nos números: uma comunidade de prática depende de poucas pessoas que puxam as outras.

A parte difícil não era a ferramenta

O trabalho registra que a adoção foi imediata para quem já queria a ferramenta. O obstáculo estava em outro lugar: "A maior dificuldade encontrada foi a de conseguir atingir todos os colaboradores." Sempre havia quem preferisse o jeito antigo ou achasse que o sistema novo não resolveria o seu caso.

Com a rotatividade alta, isso nunca termina. A conclusão diz que o número de novos colaboradores era "sempre constante", o que obrigava a divulgar a ferramenta e reforçar as boas práticas de uso o tempo todo.

Os trabalhos futuros apontavam três caminhos: levar a estrutura a outras áreas, com levantamento de requisitos próprio para cada uma; integrar o login ao LDAP da empresa, para o técnico não ter mais uma senha; e abrir o acesso no celular.

O que eu mantenho e o que eu mudaria

Mantenho a ideia central: conhecimento de atendimento é patrimônio da empresa, e ele precisa de um lugar, de um ritual e de alguém responsável. Isso vale igual para uma base de conhecimento moderna e para a IA que responde o cliente, que só é tão boa quanto o que foi registrado.

Mudaria a métrica. Em 2013 eu medi se a equipe achava a ferramenta útil. Hoje eu mediria o efeito no cliente: tempo de solução, chamados reabertos e quanto tempo um técnico novo leva para resolver sozinho, antes e depois da implantação. Opinião da equipe indica adoção; o resultado aparece no indicador do cliente.

Como aplicar hoje numa equipe de suporte

  1. Escolha um lugar só para a informação de atendimento e desative os outros. A descentralização foi o ponto de partida do problema, e 25 dos 32 respondentes disseram que centralizar ajudou.
  2. Comece pelo que já é procurado. Na DX Telecom, os conteúdos mais acessados foram informativos, soluções e utilitários. Olhe as buscas e os chamados mais frequentes e escreva primeiro esses.
  3. Registre a solução junto com o caso, no momento em que ele é resolvido. Registro deixado para depois raramente acontece.
  4. Dê dono à base. É o moderador de conhecimento de Terra e Gordon: alguém revisa, junta duplicados e apaga o que envelheceu.
  5. Cuide do grupo principal. Identifique as poucas pessoas que respondem mais, reconheça esse trabalho e dê tempo para ele.
  6. Apresente a base a cada turma nova. Com rotatividade alta, a apresentação é um ritual permanente do onboarding de quem atende.
  7. Trate a saída de alguém como risco de conhecimento. Antes do último dia, o que só essa pessoa sabe precisa estar escrito, revisado por um colega.
  8. Meça no cliente: tempo de solução e reabertura, antes e depois, com o mesmo indicador.

Sobre o lado humano da mesma questão, o artigo sobre turnover de quem atende mostra por que a rotatividade no atendimento quase nunca aparece nas pesquisas de CX no Brasil.

Termos do glossário neste artigo

Quero aplicar isso na minha operação

Esse artigo faz parte do hub CX para PMEs.

FAQ

Perguntas frequentes

Como evitar que o conhecimento do suporte vá embora com quem sai?

Dando a ele um lugar só, registrando a solução junto com o caso no momento em que é resolvido e dando um dono à base. Na saída de alguém, o que só essa pessoa sabe precisa estar escrito antes do último dia.

Um fórum interno resolve a perda de conhecimento com a rotatividade?

Em parte. Na pesquisa de 2013, 18 dos 32 funcionários (56,25%) aprovaram o fórum para isso, contra 26 (81,25%) para discutir e resolver incidentes. O fórum guarda o que foi escrito, e ninguém escreve tudo o que sabe.

O que é uma comunidade de prática?

É um grupo de pessoas que fazem o mesmo trabalho e aprendem trocando o que sabem sobre ele. O termo é atribuído a Lave e Wenger (1991), e Wenger a descreve por três dimensões: domínio, comunidade e prática.

Qual a diferença entre conhecimento tácito e explícito no suporte?

Explícito é o que já está escrito e se transmite com facilidade, como manual e procedimento. Tácito é o que o técnico aprendeu resolvendo casos e ainda não registrou, e é o que vai embora quando ele sai.

Como medir se uma base de conhecimento funciona?

No cliente, e não só na opinião da equipe: tempo de solução, chamados reabertos e quanto tempo um técnico novo leva para resolver sozinho, antes e depois da implantação.