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Diogo Kammers

Onboarding & Retenção · 10 min

A jornada do cliente que ninguém desenhou: seus processos vistos de fora

Toda empresa tem uma jornada do cliente, mesmo sem mapa: ela é o reflexo dos processos internos. Os atritos que nascem entre áreas, as perguntas para cada passagem e como medir o atrito etapa por etapa.

Por Diogo Kammers · 25/09/2026

Toda empresa tem uma jornada do cliente, mesmo a que nunca desenhou uma: ela é a soma dos processos internos, vista pelo lado de quem compra. Escrevi sobre isso no LinkedIn em 26 de julho de 2023, com uma pergunta: você já parou para pensar que a jornada atual do seu cliente nada mais é do que os seus processos internos vistos de fora?

No mesmo dia gravei o MSP Cast #49, publicado em setembro de 2023, onde a formulei assim: "isso é uma jornada do cliente nesse caso: são os processos internos visto[s] de fora" (48:57). Em dezembro de 2023 a ideia virou texto em coautoria com o Lucas Röttgering na newsletter Marketing is Dead, edição 29. Nas citações do podcast, acrescentei pontuação e corrigi entre colchetes as palavras trocadas pelo reconhecimento de voz.

A estrada que você pavimentou sem perceber

Quando uma empresa se estrutura, ela cria processos internos. Sem perceber, começa a pavimentar uma estrada, e é por essa estrada que o cliente vai da descoberta até o pós-venda. No meio do caminho há bifurcações, pedágios e buracos. Os buracos são os pontos de atrito que ninguém sabe que criou, mas que estão lá para atrapalhar ou atrasar a vida do cliente.

No podcast descrevi como isso acontece na prática: "eu criei o financeiro, funciona assim; o comercial, assim; o marketing, assim; eu fui lá, pluguei eles", e a partir daí o cliente "vai ter que se adequar" (48:31). E, quando ninguém tem consciência de que criou uma jornada, "ela muda ainda mais" (48:20), porque cada área mexe no próprio processo sem ver o caminho inteiro.

Aconteceu comigo também, quando comecei a empreender. Trabalhando sozinho, a tentação é aceitar "um pouquinho de atrito para o cliente" porque fica mais fácil para quem opera, com a promessa de tirar depois (49:17).

Jornada intencional e jornada acidental

A jornada é o caminho que o cliente percorre "desde que ele descobriu a marca até o pós-venda, mas na visão dele, para que ele tenha o menor número de atritos possíveis" (49:40). A diferença entre as empresas está no que elas fazem com isso:

  • Quem tem uma jornada intencional procura os pontos de atrito e muda os processos para que o caminho seja o mais fluido possível para o cliente.
  • Quem não tem a jornada mapeada costuma virar bombeiro: vive apagando incêndio sem saber de onde ele vem, e o mesmo problema se repete.

Processo interno funciona em silos; desenhar a jornada "é meio que como se a gente esticasse esses processos e trouxesse uma jornada mais linear" (49:54). O teste mais simples é o comportamento do cliente: quando ele vive tentando pular etapas, a jornada não está adaptada ao que deveria ser. Quando ela está fluida, "geralmente o cliente não quer pular etapas, porque ele sabe que aquele ali faz sentido para ele" (50:22).

Atrito costuma ser pequeno

"Quando eu falo de atrito, às vezes a gente pensa: pô, atrito é coisa gigante" (50:35). Muitas vezes ele é pequeno:

  • Uma demora no atendimento.
  • O perfil do Instagram sem link direto para o WhatsApp. O cliente vai ao site, não acha o link e desiste. Com o link, a empresa o pega no momento quente, enquanto ele está procurando (50:49).
  • O checkout que pede tudo de novo. O cliente fez login, preencheu os dados, montou o carrinho e, na hora de pagar, tem de digitar tudo outra vez. A reação que descrevi foi a minha: "eu vou abandonar, porque eu sei que lá no outro site eu vou pagar um pouquinho mais caro, mas [...] a minha experiência vai ser melhor" (51:46).

Na lista de estatísticas de abandono de carrinho do Baymard Institute, atualizada em setembro de 2025, a média de 50 estudos é de 70,22% de carrinhos abandonados. Na pesquisa do próprio Baymard com compradores on-line dos Estados Unidos, tirando quem só estava olhando, 18% já abandonaram uma compra porque o site exigia criar conta, e 17% por um checkout longo ou complicado demais.

O problema do atrito pequeno é que ele se acumula. O cliente explode por uma coisa simples, e a empresa estranha a reação, mas "aquilo já virou uma bola de neve: teve vários pequenos atritos que veio desde a jornada de compra, que ele foi acumulando" (52:22). "Nunca é aquela coisa simples, sabe, sempre tem um acúmulo de atritos ali" (52:34).

O Brunno Busanelli, que conduzia o episódio, tirou daí uma regra de triagem: todo atrito que o cliente reporta merece ser internalizado, e se mais três clientes falarem igual, é hora de sentar com o time responsável e ver se o problema é do processo (54:03). Às vezes a correção custa caro, como mudar a data de vencimento do dia 15 para o dia 25 porque todo mundo pede, e aí a decisão passa por quanto isso custa no fluxo de caixa e quanto melhora a percepção do cliente (55:16).

Os atritos que nascem longe do atendimento

"Geralmente o pessoal acha que experiência do cliente é atendimento", mas toda pessoa que faz alguma ação dentro da empresa participa de um processo, e "se esse processo não tiver bem feito, ele pode impactar para o cliente" (56:52 a 57:04). No episódio contei um caso que presenciei e dei um exemplo de hotel.

O boleto que não saiu. Numa empresa com experiência do cliente muito boa, uma pessoa do financeiro não comunicou a outra, "foi aquele 'deixa que eu deixo'", e alguns clientes ficaram três meses sem receber boleto (57:17). A empresa pode achar que o cliente deveria ter avisado, mas o cliente não fica "anotando lá: vou confirmar se a empresa me mandou o boleto" (57:45). As saídas são todas ruins: diluir a cobrança nos meses seguintes, dar desconto ou assumir o prejuízo. Para quem já estava insatisfeito, "pode ser a gota d'água" (58:41).

A conta, com premissas escritas: com mensalidade de R$ 600 e três boletos que não saíram, o cliente que esperava pagar R$ 600 no quarto mês recebe uma cobrança de R$ 2.400 (os três meses atrasados mais o do mês, 4 × 600). Se a empresa diluir o atrasado nos três meses seguintes, cobra R$ 1.200 por mês nesse período (600 do mês + 600 do atrasado), e só termina de receber o atrasado no sexto mês, contado a partir do primeiro boleto que deixou de sair.

A camisa que voltou sem passar. No exemplo do hotel, o hóspede deixa uma camisa social para lavar e, ao chegar à noite, encontra a camisa lavada e amassada. Para a camareira, ele não pediu que passasse; para ele, estava óbvio (59:01). Uma ligação resolveria: "você não quer que passe também?". Por isso "essas áreas que não tem tanto contato, elas são igualmente [importantes]" para a experiência (1:00:56).

O caso e o exemplo têm a mesma origem, e ela está na fronteira entre áreas. "Aquele 'deixa que eu deixo' acontece exatamente isso, quando uma pessoa não sabe o que [a] outra área faz" (1:04:21). Cada área acha que o seu limite termina onde o da outra começa, e "aquele meio ali tem uma lacuna, e ali vai ficar no limbo, onde ninguém vai pegar" até o problema estourar (1:04:41).

Como mapear a jornada vista de fora

O método que uso parte dos processos que já existem, e não de uma jornada ideal desenhada no quadro branco. Jornada do cliente foi o tema do treinamento que conduzi para o time de e-commerce do Bistek em 2024, e do trabalho com a Blue Box Consultoria e BPO Financeiro, em que a Angelita Kloh, na recomendação que deixou no LinkedIn em 12/09/2023, escreveu: "O Diogo desenvolveu um excelente trabalho, nos auxiliando com o mapeamento das personas e suas jornadas."

  1. Liste a cadeia interna. Para cada área, escreva o que ela recebe, o que faz e para quem entrega. No podcast descrevi uma cadeia assim: o cliente usa o sistema, a quantidade de usuários vai para o sucesso do cliente, que analisa e manda uma planilha para o financeiro, que fatura, emite boleto e nota, recebe e passa para a controladoria (1:03:38).
  2. Estique a cadeia numa linha só, do lado do cliente. Descoberta, primeiro contato, proposta, compra, pagamento, implantação, uso, suporte, renovação. Em cada etapa, anote o que o cliente faz, o que ele espera receber e qual área responde por aquilo.
  3. Percorra o caminho como cliente. Preencha o formulário do site, peça um orçamento pelo Instagram, peça a segunda via de um boleto. Anote cada ponto em que teve de esperar, repetir informação ou pedir ajuda.
  4. Marque as passagens. Toda vez que a responsabilidade muda de área é uma passagem, e é ali que mora o "deixa que eu deixo".
  5. Faça as perguntas de passagem, da lista abaixo, com as duas áreas na mesma mesa.
  6. Meça o atrito por etapa, com os indicadores da tabela mais adiante.
  7. Mude o processo e revise o mapa. Resolver o atrito na ponta, com um atendente mais atencioso, sem mexer na origem, é voltar a apagar incêndio.

Perguntas para cada passagem entre áreas

  • Quem é o dono desta passagem? Se as duas áreas dizem "meu trabalho termina aqui", a lacuna está entre elas.
  • O que o cliente precisa informar de novo aqui? Cada dado pedido duas vezes é um atrito que o cliente sente.
  • A área seguinte sabe o que foi prometido na etapa anterior? O Brunno lembrou que o suporte atende melhor quando sabe o que o cliente falou para o vendedor e o que está incluso no contrato (1:06:50).
  • O cliente sabe o que está incluso? O caso da camisa é uma dúvida de escopo que ninguém perguntou.
  • Se este passo falhar em silêncio, quem percebe primeiro? No caso do boleto, foi o cliente, três meses depois.
  • O cliente tenta pular este passo ou pede exceção? Pedido frequente de exceção indica etapa mal adaptada.
  • O canal da passagem é o canal do cliente? A passagem do Instagram para o WhatsApp sem link é uma passagem de canal mal feita.

Como medir o atrito etapa por etapa

IndicadorComo coletarO que indica
Taxa de passagemClientes que seguem para a etapa seguinte ÷ clientes que entraram na etapaOnde o cliente para
Tempo de esperaDias entre o fim de uma etapa e o início da próximaPassagem sem dono
Repetição de dadoCampos pedidos mais de uma vez na jornadaSistemas ou áreas que não conversam
Pedidos de exceçãoContagem por etapa, no CRM ou nos chamadosEtapa que o cliente quer pular
Queixa repetidaMesma causa relatada por três ou mais clientesProblema de processo
Esforço percebidoPergunta de esforço do cliente logo depois da etapaQuanto custou ao cliente passar por ali

A taxa de passagem é o indicador que mais muda a conversa, porque o atrito parece pequeno quando se olha uma etapa só. Com premissas escritas:

  • Um onboarding com 4 etapas, e cada uma perde 5% dos clientes que chegam a ela.
  • Chegam ao fim 0,95 × 0,95 × 0,95 × 0,95 = 81,5% dos clientes.
  • Tirar o atrito de uma das etapas, zerando a perda nela, eleva o total para 0,95 × 0,95 × 0,95 = 85,7%.

São 4,3 pontos a mais sem nenhum cliente novo (85,74% menos 81,45%). Com 300 clientes entrando por mês, a diferença é de cerca de 13 clientes que terminam o onboarding (300 × 0,043 ≈ 12,9). Para o esforço percebido, a calculadora de CES faz a conta da nota.

O papel de quem está sentado

No texto do Marketing is Dead usei a imagem de um ônibus lotado, que vem do artigo "Você é do tipo que senta na janela ou dá seu lugar no ônibus?" (LinkedIn, 28/10/2021). Algumas pessoas estão sentadas, confortáveis; outras estão em pé, espremidas, reclamando. Os sentados são clientes e colaboradores satisfeitos ou acomodados; os que estão em pé são o cliente com problema recorrente e o colaborador que ninguém ouve.

Ceder o lugar é o gesto de empatia que muda a viagem. E o efeito é maior quando quem se levanta é quem manda: presidente, diretores, gerentes, líderes. No mapeamento, isso quer dizer levar para a mesa das passagens quem atende o cliente que reclama de novo, e ouvir essa pessoa antes de decidir.

Quando uma folha basta

O mapa mostra onde está o problema, e a mudança acontece no processo. Numa empresa pequena, com uma ou duas pessoas, o mapa pode ser uma lista numa folha com as etapas e as passagens, e isso basta. Os indicadores da tabela passam a valer quando há volume para contar: com poucos clientes por mês, a conversa com cada um que travou diz mais que uma taxa. E a jornada muda sempre que um processo muda, então o mapa precisa ser revisto junto, ou vira retrato de uma empresa que não existe mais.

Para as ferramentas do mapeamento, veja a página sobre jornada do cliente, o guia de mapeamento e os verbetes Jornada do Cliente e Handoff.

Ferramentas para aplicar este artigo

Quero aplicar isso na minha operação

Esse artigo faz parte do hub Onboarding & Retenção.

FAQ

Perguntas frequentes

Toda empresa tem uma jornada do cliente?

Sim. Mesmo sem mapeamento, o cliente percorre um caminho da descoberta ao pós-venda, moldado pelos processos internos da empresa.

Qual a diferença entre jornada intencional e acidental?

A intencional é desenhada a partir do cliente, procurando e removendo os pontos de atrito. A acidental é a soma dos processos criados para a operação, e o cliente tem de se adaptar a ela.

Como mapear a jornada do cliente a partir dos processos internos?

Liste o que cada área recebe, faz e entrega, estique essa cadeia numa linha do lado do cliente, percorra o caminho como cliente e marque cada passagem entre áreas, que é onde o atrito costuma nascer.

Como medir o atrito em cada etapa da jornada?

Com a taxa de passagem entre etapas, o tempo de espera, os dados pedidos mais de uma vez, os pedidos de exceção, as queixas repetidas e uma pergunta de esforço logo depois da etapa.

Como saber onde está o atrito na jornada?

Olhando as passagens entre áreas: onde o cliente repete informação, pede exceção, tenta pular etapas ou reclama na passagem de uma área para outra.