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Diogo Kammers

CX para PMEs · 8 min

Como escrever a proposta de valor para quem paga, e não só para quem usa?

Em 15 de 62 startups mentoradas, a proposta falava de tecnologia, atributo ou impacto em vez do ganho de quem compra. Cinco formas do problema e cinco passos para corrigir.

Por Diogo Kammers · 26/09/2026

A proposta de valor para quem paga responde uma pergunta que o usuário nunca faz: quanto isso me faz ganhar ou deixar de perder, e em quanto tempo. Várias startups desta base tinham a resposta certa para quem usa (é mais fácil, mais rápido, mais bonito) e nenhuma para quem assina o contrato. Nos relatórios das minhas mentorias, a proposta de valor sem tradução para o comprador apareceu em 15 das 62 startups, e foi a segunda categoria mais frequente, atrás só do cliente ideal indefinido.

Os casos aparecem sem nome, cada número tem o critério escrito, e as categorias são a minha leitura como mentor.

De onde vêm os números

O universo são 69 relatórios de mentoria de 62 startups que atendi em programas de aceleração, de 04/2025 a 09/2026. Cada relatório é o texto que preenchi depois da sessão, com o que a startup trouxe, o meu diagnóstico e os encaminhamentos. Em 60 dos 69 relatórios a startup estava antes de operar (13 em ideação, 21 em validação, 26 em MVP); 9 estavam em operação e nenhuma em tração.

A recontagem foi feita relatório a relatório em 26/09/2026. A unidade é a startup: ela entra na categoria se pelo menos um dos seus relatórios registra o problema no que ela trouxe ou no meu diagnóstico. Recomendação que aparece só nos encaminhamentos não conta.

Critério de "valor não traduzido": o que a startup trouxe, ou o meu diagnóstico, registra que o cliente não enxerga o valor, ou que a startup não consegue comunicar o ganho concreto de quem compra (dinheiro, tempo, risco) e comunica atributo, tecnologia ou impacto no lugar. Proposta "ainda por definir" que aparece só nos encaminhamentos ficou de fora. Com esse critério, deram 15 de 62.

Há um recorte menor dentro disso, que conto à parte e com ressalva: em 6 startups o que a startup trouxe, ou o meu diagnóstico, registra que o usuário e o pagante eram pessoas diferentes e que a validação ou a proposta tinha ficado no usuário. Esse recorte não faz parte das sete categorias que usei na contagem geral. Ele serve para ilustrar o problema, e não como estatística.

Cinco formas de falar com a pessoa errada

Juntei os 15 casos pelo que ficou escrito no relatório. As formas se repetem:

1. A tecnologia no lugar do ganho

Startups de base científica, com patente, estudo de longa duração e resultado de laboratório, apresentavam exatamente isso: a patente, o estudo, o resultado. O comprador, um gerente de produção ou um diretor, queria saber quanto ia economizar. Num caso, a startup tinha um resultado de redução de tempo de produção muito forte e falava em produtividade para quem decide por dinheiro. A recomendação foi converter a produtividade em número financeiro.

2. A usabilidade no lugar do resultado

Uma plataforma de compras mostrava ao cliente como a ferramenta era fácil de usar. O que justificaria a licença era outra coisa: quantos e-mails, ligações e contatos de negociação o cliente fazia antes, quanto tempo levava cada cotação, e quanto disso caía com a ferramenta. A recomendação foi medir o processo atual e comparar.

3. O impacto no lugar do benefício de quem decide

Soluções de impacto social e ambiental apareceram várias vezes. A proposta falava de sustentabilidade, de comunidade, de redução de desmatamento ou de lixo. Quem assina é um gestor público, um comprador de pequena empresa ou um consumidor, e cada um decide por outra coisa: eficiência, conformidade, redução de perda, benefício pessoal. Num caso, a startup vendia a um público que não compra pelo lado social, e a recomendação foi mostrar a redução de mortalidade e de prejuízo em reais.

O impacto continua importante. Ele entra como segunda camada, depois do ganho que convence quem paga.

4. O benefício do usuário no lugar do benefício do pagante

Este é o recorte das 6 startups. Uma plataforma para jovens falava do benefício para o jovem, e quem pagaria era a escola ou a empresa. Uma plataforma de ensino tinha sido validada com os estudantes, e quem pagaria eram as universidades. Um serviço de coleta era usado pelo morador e contratado pelo síndico.

Nos relatórios, a recomendação foi separar quem usa de quem paga e, num dos casos, escrever uma narrativa dupla: o impacto para quem usa, que sustenta a adoção, e o valor para quem paga, que sustenta a compra. Para a empresa contratante, isso quer dizer indicador: contratação mais assertiva, rotatividade menor, relatório que ela não teria de outra forma.

5. O posicionamento que confunde

Uma startup de recrutamento corria o risco de ser vista como mais um banco de vagas, e o cliente a compararia com a categoria errada. A recomendação foi deixar claro, logo no primeiro contato, o que a solução não é, e só depois o que ela faz.

Quando o problema aparece só na recomendação

Em outros relatórios a mesma falha aparece apenas nos encaminhamentos, e por isso ficou fora da contagem. Vale registrar porque a correção é a mesma. Uma startup de serviços técnicos apresentava o portfólio inteiro a cada cliente. Na segunda sessão, registrei que ainda pensavam em mar aberto e mostravam o que sabiam fazer, e não a solução para uma dor específica. A recomendação foi uma página e uma apresentação por dor, com causa, impacto, solução e chamada para ação. Numa startup de consultoria, o relatório registra o mesmo padrão: a lista de serviços no lugar do problema resolvido.

O mesmo vale para soluções de inteligência artificial. Um relatório de agosto de 2026 registra a recomendação de parar de apresentar a solução como tecnologia de IA e começar pela dor do cliente: oportunidade perdida, demora na resposta, venda que não foi recuperada.

Por que isso acontece

Pelo que ficou registrado, três causas aparecem juntas:

  • O time fala a língua do produto. Em 11 das 62 startups registrei time técnico, científico ou acadêmico sem experiência comercial. Quem construiu o produto descreve o produto.
  • O cliente ideal não está escolhido. Em 29 das 62 startups o ICP estava indefinido. Sem saber quem paga, não dá para saber qual ganho interessa a essa pessoa. O texto sobre como definir o ICP quando o problema parece ser vender mais trata desse passo.
  • Falta dado. Várias startups tinham piloto ou cliente, mas nenhum número de impacto. Sem antes e depois medidos, a proposta fica em adjetivo.

Como escrever a proposta para quem paga

Os encaminhamentos que mais escrevi nesta categoria cabem em cinco passos.

1. Nomeie o pagante, e não o usuário

Escreva quem assina o contrato, com cargo e contexto. Se o usuário é outra pessoa, escreva as duas, separadas. O ICP é definido pelo pagante.

2. Liste o que o pagante perde hoje

Tempo, dinheiro, risco, retrabalho, multa, cliente perdido. Use o vocabulário dele. O gestor de uma indústria fala em custo e produtividade; o gestor público, em conformidade e orçamento; o dono de pequena empresa, em caixa e tempo.

3. Meça o antes e o depois

Uma recomendação que se repete nesta categoria é coletar dado durante o piloto: tempo de processo, perda evitada, receita gerada, redução de custo. Se ainda não existe piloto, meça o processo atual do cliente, que já é metade da conta.

4. Transforme em uma frase e em um caso

A frase diz para quem, qual resultado e em comparação com o quê, como está no verbete de proposta de valor. O caso mostra o resultado em um cliente real, com número. Construir o primeiro caso de sucesso é um encaminhamento que se repete ao longo dos relatórios.

5. Adapte a mensagem a cada decisor

Em vendas para empresas e governo, costuma haver mais de uma pessoa envolvida na decisão, e cada uma quer um argumento diferente. A recomendação foi mapear esses papéis (quem abre a porta, quem influencia, quem decide) e preparar um argumento para cada um, com a mesma proposta central.

Quando quem paga é o poder público

Algumas startups desta base tinham prefeituras ou órgãos públicos como comprador. Nesses casos o relatório registra uma camada a mais: além do ganho, o gestor precisa de um caminho de contratação seguro. As recomendações foram três:

  • Conhecer os caminhos que a lei prevê para o órgão comprar inovação, como o Contrato Público para Solução Inovadora do Marco Legal das Startups (LC 182/2021, arts. 12 a 15), e levar essa informação à conversa. A escolha e a condução do processo são do órgão, e a startup deve ter orientação jurídica própria antes de participar da preparação de qualquer contratação.
  • Verificar se existem programas ou fontes estaduais e federais que o órgão possa usar, para responder à objeção de falta de orçamento.
  • Reescrever o material na linguagem do gestor público: eficiência operacional, redução de custo, conformidade legal, e só então o impacto socioambiental.

Em mais de um caso, a recomendação também foi validar primeiro com clientes privados, de ciclo de venda mais curto, e levar os resultados para a negociação com o setor público.

Quando o valor justifica outro preço

Proposta de valor e preço se conferem um ao outro. Num relatório de setembro de 2026, a conta ia no sentido contrário ao que o fundador esperava: a solução tirava do cliente um custo muito maior do que o valor da assinatura, e o risco era cobrar pouco demais. A recomendação foi cobrar por faixa de resultado gerado, com a régua de medição combinada no contrato, e com o cliente enxergando desde o início quanto paga conforme o ganho cresce.

Quando a proposta está escrita em ganho medido, a conversa de preço muda de lugar. O cliente compara o preço com o que ganha, e não com o concorrente mais barato.

Sinais de que a proposta não chega a quem paga

  • O cliente elogia e não compra.
  • A proposta é enviada e não volta.
  • O pitch dedica mais tempo à tecnologia do que ao problema do cliente.
  • Ninguém no time sabe dizer quanto o cliente economiza ou ganha.
  • O material é o mesmo para quem usa e para quem paga.

Limites desta contagem

  • As categorias são leitura minha, feita a partir do relatório que eu escrevi. Outro mentor poderia classificar diferente.
  • O relatório resume uma hora de conversa. O que não foi escrito não entrou na contagem.
  • A base registra o momento da mentoria e não acompanha o que aconteceu depois. Ela não permite dizer se a recomendação funcionou.
  • O grupo é de programas de aceleração, quase todo antes de operar. Os números não descrevem empresas maduras.

A lista desta categoria, com identificador anônimo em ordem da primeira sessão, é: O04, O09, O11, O19, O20, O23, O27, O29, O32, O34, O41, O43, O47, O48 e O55. O recorte de usuário diferente do pagante: O13, O16, O23, O38, O44 e O46.

Antes da proposta vem a validação. O texto sobre como validar uma startup antes de montar o funil de vendas usa a mesma base.

Quero aplicar isso na minha operação

Esse artigo faz parte do hub CX para PMEs.

FAQ

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre proposta de valor para o usuário e para o pagante?

Para o usuário, o valor costuma ser facilidade e rapidez. Para quem paga, é ganho ou perda evitada: dinheiro, tempo, risco. Quando são pessoas diferentes, a proposta precisa das duas camadas, e a venda depende da segunda.

Como mostrar valor antes de ter muitos clientes?

Medindo o processo atual do cliente e comparando com o processo usando a solução, ou coletando dado de impacto durante o piloto: tempo, perda evitada, custo reduzido, receita gerada.

Com que frequência a proposta de valor não chegava a quem compra?

Em 15 das 62 startups, nos 69 relatórios de mentoria de 62 startups atendidas pelo Diogo em programas de aceleração, de 04/2025 a 09/2026. O critério foi o que a startup trouxe, ou o diagnóstico do mentor, registrar que o cliente não enxergava o valor, ou que a startup comunicava atributo, tecnologia ou impacto em vez do ganho de quem compra. A categoria é leitura do mentor.

Impacto social e ambiental entra na proposta de valor?

Entra como segunda camada. Quem assina decide por eficiência, conformidade, redução de perda ou benefício próprio; o impacto reforça a decisão depois que esse ganho está claro.